Os lúcidos seguidores

21 de dez. de 2013

O lutador


            Ao deitar no chão, o seu corpo se entregava, como em um lutar em que o adversário batia, não três vezes, mas várias vezes ao chão, terminando assim o combate. Do chão você via os punhos que lhe derrubaram, sendo levantados e glorificados pelo feito. Era assim que o corpo estendido se sentia, de longe via os punhos erguidos e em sua face apenas a vergonha, só faltava a plateia.

            Nessa luta o adversário era um espelho, o sangue faltava. O ringue não tinha limites definidos. Nem mesmo tinha alguém para lhe sentar no banquinho e colocar gelo na sua nuca e dizer em seus ouvidos, algumas mentiras motivadoras.

20 de dez. de 2013

Mesa de bar


            Ele ouviu cada música, como se cada música fosse uma parte de sua vida. Uma nova música, um novo recomeço. Ele se desfez nas letras jogadas ao vento, e se refez nos sentimentos baratos que transbordavam no copo a sua frente. Virava o copo duma vez, tentando se embriagar. Mas antes mesmo de beber alguma coisa, ele já estava com a alma de um embriagado.
            Garçom- Chamou ele.
            O garçom que atendia o bar vazio, estava sentado assistindo televisão, se levantou e foi em sua direção.
            Diga senhor! – disse ele educadamente.
            Se eu me ausentar daqui e não puder me lamentar desses prazeres ingratos que a vida meu deu - deu uma pausa para virar mais um copo – por favor guarde o meu lugar. Ninguém além de mim, vai puder se lamentar.
            Sim senhor – disse o garçom se retirando.
            Ele sorriu e gritou: - O bar é meu, quem não concordar, que não concorde, mas que essa é a verdade, em que eu acredito.
            O garçom ficou olhando com uma cara de desprezo.

            A cadeira em pouco tempo ficou ausente, mas daquele dia em diante já tinha dono, mesmo que não estivesse mais em corpo presente.

18 de dez. de 2013

A cegueira poética


            Ela era uma garota inteligente, falava três línguas e desenhava paisagens como ninguém. Era pintora, desenhava nos quadros paisagens que ela nunca viu, e nem fazia questão de ver. Afinal, os olhos dela eram cegos, apesar de que ela conseguia ver as pessoas a sua frente, sempre fazia questão de esbarra-las, só por inconveniência. Ela não via as luzes, mas as sentia em seu corpo, desenhava todas as cores, sabia de cada espaço, via tudo que tinha de ver mesmo com os olhos fechados. Andrezza não sabia o que era a escuridão, e morrerá sem saber.
            Deixar de ver nem sempre é ver escuridão. Deixar de viver, é ser cego. Não ter olhos é ver com as mãos. Ver escuridão é ser cego, mesmo com dois bons olhos, em sua face montada.

            

O Habitante de Pasárgada - Manuel Bandeira (curta-metragem)



Gênero: Ficção 
Diretor: Marcela Bertoletti 
Elenco: Arduino Colasanti, Sérgio Britto 
Duração: 19 min     Ano: 2009     Formato: Vídeo 
País: Brasil     Local de Produção: 
Cor: Indisponível 
Sinopse: No cotidiano, os livros, as caminhadas com a cadela Luna e as conversas com o vizinho Vicente. Nos sonhos, a poesia. Certo dia, Horácio decide sair por aí e procurar por Pasárgada. 

17 de dez. de 2013

Conhecendo a si mesmo



            Quantas e quantas pessoas acham que se conhecem, mas que ao olhar o espelho se perguntam de uma forma instintiva, quem é esse? Conhecer a si mesmo é tão complicado quanto conhecer o próximo, afinal nossos olhos estão voltados para fora e para dentro só resta a escuridão e a percepção do que somos. Somos aquilo que queremos ser, somos o que o nossa boca diz. Somos na verdade, o olhar que o espelho reflete. O olho voltando para dentro e buscando ver o que é escuro para nossa mente e tão nítido para os outros.

O velho e habitual


            O velho e habitual clichê da noite inspiradora, esse é o meu velho dilema.
            Não sei se estou ficando velho ou se minha cabeça é que não evolui, mas certas noites para mim são como dia, sempre tendo algo querendo queimar meus olhos. Por isso durmo cedo para acordar cedo, ironicamente com a luz rasgando os meus olhos. Porquê aquilo que me inspira, me repele? Afastar do negro é afastar de mim, a minha essência solitária, a alma de um poeta vadio.

            Depois de um tempo perdido na minha própria infâmia, vi o quanto fui ingênuo, pois sempre foi assim, a noite é minha repulsa, é algo que me completa, mas que não é natural de mim, e sim algo colocado por mim, pois só assim, me sinto poeta. Escrevendo nas noites vagas e silenciosas, palavras que transbordam do meu ser.