Os lúcidos seguidores

13 de mar de 2012

O homem correto e o bêbado que fala demais


            

            Era um dia claro, sem muitas nuvens no céu. Ele acabara de acordar, ainda vestia o pijama todo amassado e calçava o chinelo, enquanto caminhava para a cozinha, para fazer o tão tradicional café preto.
            Era domingo, não tinha empregada, tinha que fazer tudo sozinho.
            - Ai que fome, o que será que tem na geladeira!
            A geladeira estava mais vazia que barriga de mendigo.
            - Ah não, só me falta não ter mais café, essas empregadas de hoje em dia!
            Ao abrir o armário, lá estava o pote de café. Ele subira numa cadeira para tentar pegar o pote, mas ao encostar os dedos viu que o pote não tinha nada.
            - Oh Deus, me ajude por favor.
            Ele corria para o quarto, trocava de roupa rapidamente e ajeitava os cabelos arrepiados.
            Colocou o agasalho, pois aparentava estar um dia frio, pegou a carteira e saiu fechando a porta do apartamento.
            Ainda era cedo, mal o sol tinha nascido ainda. No condomínio mal tinha gente andando por ele. Mas ao sair encontrou o Seu João, e o respondeu:          
            - Como vai camarada?
            - Vou bem e o senhor?
            - Levando a vida né...
            - Alguma novidade? Disse Seu João se afastando.
            - Nenhuma.
            O dia estava quente, e nem um pouquinho frio, tirara o agasalho e botou nos ombros. E ainda resmungara.
            - Esse tempo doido, sempre mudando.
            - Porteiro! Gritava ele.
            E o porteiro abriu a porta para ele sair. De onde ele estava, a padaria parecia ser longe.
            E foi caminhando...
            Logo depois do condomínio, tinha um barzinho, lá se encontrava um homem, visivelmente bêbado.
            - Oi. Dizia o bêbado fortemente, o fazendo parar.
            - Oi.
            - Sabe quem eu sou?
            - Um bêbado. Dizia em um tom de ironia.
            - Não diga, foi tão difícil assim perceber.
            Realmente aquele dia ele acordara de pé esquerdo.
            - Cara, continua bebendo aí que eu vou comprar minha comida.
            - Que é cara? Disse ele se levantando.
            - Hã?
            - Tu vai me ignorar só porquê eu estou bêbado? só porque sou zé ninguém, é isso? SEU HIPOCRITA! Gritava ele.
            - Cara tu pegou o cara errado, hoje eu acordei de mal humor.
            O bêbado foi para cima dele, e sem dificuldades ele deu um murro que o bêbado caiu no chão gemendo de dor.
            - Que merda essa? Dizia o dono do bar, Senhor Miguel.
            - Nisso que dá, deixar o bar aberto 24 horas, pra vagabundo beber.
            Ele aproveitou que outras pessoas chegaram para ajudar o bêbado caído e saiu para a padaria.
            E nesse tempo, já inconformado de ter tantas pessoas o ajudando, resmungava, como se tivesse falando com alguém.
            - Esse mundo esta perdido mesmo viu, até vagabundo tem mais direito que a gente.
            Ele ficara muito inconformado, se julgava o exemplar cidadão, dava moeda aos pobres, separava seu lixo, fazia tudo aquilo que a sociedade mandava. Para ser um cidadão exemplar, seguia à risca, as regras.
            Com as sacolas na mão e com sua boca “afiada”, foi em rumo ao seu condomínio, andava de olho no bar e no bêbado consolado agora por um rapaz, que já se despedia dele.
            O bêbado já olhava para ele, e ele devolvia o mesmo olhar, o coração batia frenético ao chegar perto.
            - E ai covarde, vai me ignorar de novo? Disse o bêbado rindo da cara dele, ria de jeito tão natural, que arranha a pouca lucidez que lhe sobrava.
            Ele nunca se sentira tão humilhado. E para piorar na hora que o bêbado riu dele, ao levantar a cabeça, viu outros mais a frente rindo. Se viu cheio de razão nesse momento, na verdade ele tinha tudo, menos razão na sua cabeça. O homem lucido e certo, ali se entregava a verdadeira forma, caía-lhe a máscara imposta para usar.
            O monstro se revelava.
            E um único chute derrubou o cadeira do bêbado, fazendo-o cair no chão, e a cadeira se espatifar.
            - Já não basta o que tu fez e agora quer me bater.
            - O QUE EU FIZ SEU RETARDADO? O monstro disse gritando.
            E ao correr deu um chute na cabeça do pobre bêbado, fazendo sua boca sangrar e sujar a rua.
            Na mesma hora algumas pessoas correram para segura-lo, e assim fizeram.
            - Que foi seu bêbado imundo? Você é um zé ninguém! Dizia ele achando estar cheio de razão.
            O bêbado se levantou, e disse:
            - Eu sou um zé ninguém mesmo, nunca neguei isso. Melhor do que ser um falso.
            Os vizinhos do seu apartamento, já o olhavam do outro lado da rua, já os via com rostos de negação, e outras pessoas também.
            O monstro se revelava, o homem que jaz ali, não existe mais, tamanha foi a humilhação para ele, que a razão se perdeu dentro de si.
            Jogou as sacolas no chão, fazendo varias coisas quebrarem e derramar a manteiga, o leite, e a garrafa de vinho, entre outras coisas.
            - Tudo bem, desculpas cara, eu perdi o controle.
            E assim o saltaram, deixando ele livre de qualquer amarra, assim o monstro esta solto, para fazer o que bem entender.
            O bêbado se levantou e foi em direção a ele. Na visão do monstro, pensou que levaria um murro, na visão do bêbado era apenas um abraço, de desculpas.
            O bêbado o abraçou e fincou no seu rosto, uma cara de espanto, a boca sangrando, semiaberta e paralisada no meio de tantas pessoas.
            O monstro sorria na sua loucura, até o homem voltar a si e se desesperar. O monstro quando ameaçado, não perdoa, no movimento que bêbado fez para cima dele, pegou o gargalo no chão e o fincou na barriga do pobre bêbado, no momento em que ele o abraçara.
            O corpo caia ao chão, e o homem que o feriu se desesperara, correu para seu prédio, fugindo dos homens que o queriam, se trancou no seu apartamento, e ficou no parapeito do seu prédio a admirar o chão que ficava na entrada. O corpo nas alturas, o chão distante, depois de alguns segundos, o chão e o corpo, na mesma dimensão.


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